Testamento de um cão


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Minhas posses materias são poucas e eu deixo tudo pra você... Uma coleira mastigada em uma das extremidades, faltando dois botões, uma desajeitada cama de cachorro e uma tijela d'água fendada na borda, além é claro, de todas as minhas esculturas, mas como estas foram feitas em objetos já seus, considero como presentes já entregues... Deixo pra você metade de uma bola de borracha, uma boneca rasgada, que vai encontrar debaixo da geladeira, um ratinho de borracha sem apito, que está debaixo do fogão da cozinha e uma porção de ossos enterrados no quintal... Além disso, deixo pra você as memórias, que aliás são muitas e são meu bem mais precioso... A memória de dois enormes olhos marrons, uma caudinha curta, orelhas grandes, nariz molhado e de choradeiras atras da porta...
Deixo pra você uma mancha no tapete da sala junto a janela, aonde, quando nas tardes de inverno, eu me enrolava feito bolinha para pegar um pouco de sol... Deixo pra você um tapete esfarrapado em frente a sua cadeira preferida, o qual na verdade nunca foi concertado com a linha certa. Eu o mastiguei todinho quando tinha apenas cinco meses de idade, lembra? Com ele deixo tambem a memória da primeira surra que levei e de todo meu esquecimento... Deixo pra você o esconderijo que fiz no jardim, perto da varanda, onde eu encontrava asilo durante aqueles dias de verão. Ele deve estar cheio de folhas agora e talvez tenha difuculdade em encontra-lo. sinto muito!... Deixo também e só pra você, o barulho que fazia quando saia correndo sobre as folhas de outubro, em nossos passeios...
Deixo a lembrança de momentos pelas manhãs quando caminhavamos as margens do riacho, e você me dava biscoitos, os seus sempre eram melhores que os meus... Recordo-me das risadas, porque eu não conseguia alcançar os passaros impertinentes. Deixo-lhe como herança minha devoção, minha simpatia, meu apoio quando as coisas não andavam bem, meus latidos quando você levantava a voz aborrecido e minha frustração por ter brigado comigo quando encontrava minhas esculturas... que agora são suas... Eu nunca fui a Igreja... Eu nunca escutei um sermão... No entanto, mesmo sem haver sequer falado uma palavra em toda minha vida, deixo pra você exemplo de paciência, amor compreensão... e tenho certeza que me fiz entender... Sua vida tem sido mais alegre porque eu vivi! (Adaptado do texto de Frank Reichstein)